O empresário irrequieto que faz livros que saltam à vista
29/Janeiro/2010 por BOOKSMILE
Artigo no Diário de Notícias de 29-Jan-2010 , por Jorge Fiel (fotografia de Arlindo Camacho):

Transcrição (os links são nossos):
Emergentes: Manuel de Freitas, empresário
O EMPRESÁRIO IRREQUIETO QUE FAZ LIVROS QUE SALTAM À VISTA
Assim que chegou com o nariz ao balcão, começou a ajudar na livraria dos pais. Andou no Colégio Militar. Fez uma fortuna na Bolsa e a piratear jogos para o ZX Spectrum. Vendeu gelados e ervilhas. Foi um dos pioneiros da Internet em Portugal. Aos 38 anos, passou a patacos um negócio de toques para telemóveis e reformou-se. Farto de não fazer nada, em 2009 fundou a editora Booksmile.
Acertados investimentos na Bolsa (aos 20 anos encaixou 12 mil contos com a venda de acções da Sonae compradas dois anos antes por 500 contos) e um talento empreendedor precocemente revelado (era adolescente quando inventou uma versão para ZX Spectrum do Strip Poker) permitiram que Manuel de Freitas fosse para as aulas de Gestão na Católica ao volante de um vistoso Mazda MX-5 vermelho.
No princípio foram os livros. Os pais, ambos de Chaves – uma professora primária (que aos 35 anos se licenciou em Filologia Românica) e um capitão (que se reformou como coronel) -, abriram uma livraria no centro comercial do bairro da Portela, para onde foram morar quando acabou a guerra colonial.
Assim que chegou com o nariz ao balcão, começou a ajudar o sr. Pinto, o histórico empregado da livraria Orvil (livro ao contrário). “A minha posição favorita era na caixa registadora. No Natal adorava conseguir fazer cinco trocos de cabeça ao mesmo tempo”, conta.
Estes malabarismos de cálculo mental haveriam de lhe ser úteis. Tinha 15 anos quando convenceu os pais a venderem na Orvil os computadores ZX Spectrum, uma visão de futuro (a Fnac factura mais na electrónica do que com a venda de livros) que dissimulava o pequeno interesse egoísta de arranjar um para ele a preço de revenda.
Surfou em cima da loucura pelos Spectrum duplicando jogos, que vendia como pãezinhos frescos. A pirataria do Manic Miner, Out Run ou Enduro Racer proporcionou-lhe uma pequena fortuna, financiando a criação da cadeia de lojas Quantum, que vendeu ao sócio quando aos 22 anos decidiu dedicar-se a sério ao curso, para conseguir uma média que lhe abrisse as portas da Unilever.
Já era um fascinado pela Internet quando, aos 25 anos, debutou na Iglo/Olá, e por isso não se demorou pelas ervilhas e gelados. Deixou as impressões digitais espalhadas pela pré-história da Web em Portugal (esteve na IP Global e na fundação do Clix) mas nunca desistiu dos seus próprios negócios privados – trouxe para Portugal a Cantina Mariachi (que vendeu) e a Waipaï (que fechou).
No ano 2000, decidiu voltar a ser empresário em regime de exclusividade. Recebeu o último salário e criou a 2020 Multimédia, que se celebrizou pelos postais da Alice e sobreviveu à explosão da bolha das dot.com corrigindo a rota para o lucrativo negócio de venda de toques e imagens para telemóveis.
Aos 38 anos, vendeu tudo e reformou-se. Durante três anos fez o que lhe deu na veneta. Leu, viajou, casou (“Fizemos tudo ao contrário. Primeiro a lua-de-mel, a seguir casámos em Las Vegas, depois fui ao Canadá conhecer os sogros”), subiu a todas as torres famosas e saltou de pára-quedas. Até que concluiu que já não tinha nada para não fazer e voltou ao mundo dos livros, investindo 1,5 milhões de euros na Booksmile.
Como sabe que só por sorte as decisões por impulso dão bons resultados, afinou bem o conceito antes de se lançar no encapelado mundo da edição. “Livros que saltam à vista” é a frase que sintetiza o posicionamento da Booksmile, que arrancou em 2009 com 28 títulos (120 mil livros) e se define como a primeira editora portuguesa de livros ilustrados de qualidade para o grande público. Manuel volta aos livros, flanqueando as editoras tradicionais. Ou seja, não está a fazer concorrência a Paulo Teixeira Pinto, o filho do sr. Pinto, o histórico empregado da livraria Orvil.
PERFIL
Idade: 42 anos
O que faz: Fundador e director-geral da Booksmile
Formação: Licenciado em Gestão na Católica de Lisboa, em 1992
Família: casado com Nancy, uma luso-canadiana que é quadro da Associação Nacional de Farmácias. Não têm filhos, porque fizeram por isso
Casa: Apartamento na zona da Expo, em Lisboa
Carro: Mazda MX-5 (nunca teve outro modelo)
Telemóvel: iPhone, mas gostava de ter um Android, porque é um adepto total do Google
Portátil: Fujitsu/Siemens
Hóbis: lê em média um livro por semana, raramente ficção, da biblioteca privada de 25 mil títulos que tem permanentemente ao dispor. Assina 30 revistas. Gosta muito de cinema, que vê em casa desde que comprou um projector – “tenho a ambiência da sala de cinema sem o barulho das pipocas”. Também gosta muito de viajar internamente aos fins-de-semana – como fazer um piquenique no parque fluvial de Vila Nova da Barquinha
Férias: “Desde que estou auto-empregado, a Booksmile são as minhas férias”. Dito por outras palavras, apenas tem viajado em trabalho, para as feiras de Frankfurt, Londres e Milão.
Regra de ouro: Para aliviar o stress, recorda a frase retirada de um jogo: “Relax, pretend it’s a game”, para parar, dar dois passos atrás e ver as coisas em perspectiva. Nos negócios, a regra é de que uma empresa para ser líder tem de ser a melhor em preço, em produto ou em serviço.
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