Almoços, opiniões e as redes sociais
06/Novembro/2009 por José de Noronha Brandão
(Este artigo de opinião foi publicado hoje no Blogtailors.)
O meu avô dizia-me frequentemente que a disciplina e o método eram regras fundamentais para se levar a vida. Tudo deveria ser planeado e executado no seu tempo, e a preguiça era uma das causas para o desmoronamento das nossas existências. Por isso, na casa dos meus avós – e pais –, havia horas para tudo, como se a rotina assegurasse a identidade. Fundamental, acredito ainda hoje.
Confesso-me mais preguiçoso e, há muito pouco tempo, ouvia o seguinte conselho: «Não te fies na memória, que falha. Planifica e executa de acordo com o teu plano. Diariamente dá baixa do que fizeste e do que está ainda por fazer, atribui importância numeral e conclui, por dia, o que está na zona crítica, o que tem tempo e o que ficou descontrolado.» Fundamental, acredito ainda.
E, depois da teoria, vem a prática. Acordo cedo, pratico os dois princípios básicos da cabala, não reajas e não julgues, nas intermináveis filas da A5 ou da Marechal Craveiro Lopes (sim, a Segunda Circular), e tento, quando posso, correr à hora de almoço e não sair muito além das 19.30. Mas este meu BI profissional deve ser um tanto ou quanto igual a mais uns milhares nesta Europa. De quando em vez, almoça-se com uns amigos, conhecidos ou futuras relações profissionais. Nunca temos tempo para todas as actividades de lazer que, durante a semana, nos chegam via e-mail, já deixei de ter tempo para comprar e ler jornais diariamente, e um dos prazeres do fim-de-semana (que ridículo) é comprar jornais e folheá-los, com um circunspecto ar de quem assumiu ser leitor e editor daquela recente propriedade.
Neste lufa-lufa diário, mas que se repete por semanas a fio – o Verão impõe-me outras rotinas –, acabamos por perceber que a nossa existência se reduziu a uma página de Internet e às redes sociais. Existimos mais no Facebook e no Twitter (tenho as minhas reservas sobre o Twitter) do que na plácida existência material. Falamos, refilamos, opinamos, tornamo-nos amigos e bloqueamos mais do que propriamente na vida, olhos nos olhos. Quando é que nos perdemos? Quando é que passámos a fazer tão facilmente amigos no computador e quando perdemos essa enorme capacidade de interagir?
O contra-senso começa aqui, começa no exacto momento em que não nos envergonhamos de falar e escrever para uma fotografia, um endereço de e-mail, um blogue, mas, em carne e osso, não o conseguimos fazer a um perfeito estranho.
Mas este texto não era para ser uma divagação ontológica sobre mim e a minha visão social, mas antes para que se entendesse o que mudou e a forma como quem está neste mercado editorial tem que passar a olhar. Um livro é um conjunto de palavras e/ou imagens que sugerem ideias, pensamentos, posições. Um repositório de intenções a serem percepcionadas – lato sensu. Quem edita tem uma preocupação, vender, e pode acumular outra: a qualidade do que quer vender. Mas, para vender, é preciso definir a quem, e neste «quem» cabe a minha divagação ontológica: mudámos todos e mudamos conforme o meio onde estamos. Eu sou eu aqui na escrita, mas altero-me em pessoa e adquiro outras coragens e atitudes ao vivo e a cores, no meu Facebook ou no da empresa onde trabalho. Eu sou pessoano, pois sou eu e os outros e, por vezes, os outros é que são o Inferno!
Os livros são como as luvas: mesmo que não assentem na perfeição, a maior qualidade é serem confortáveis ou servirem o propósito com que os adquirimos. Se uma luva de lã tem uma função mais prática que uma de pele, se a de pele exibe um estatuto, um hábito, uma ideologia, um sonho, uma aspiração, tudo pode ser explicado, mas nada se compara à sensação de conforto que um livro nos dá numa certa altura.
Uma editora, nos dias de hoje, mais do que a qualidade, a variedade, o público perfeito, tem de se arriscar a dar a cara e a comunicar! Uma editora tem de entrar noutros domínios que não os seus, de escrita invasiva, evasiva, intrusiva, construtiva, socializante. Uma editora tem de se dar a conhecer, pôr-se na boca da Net!
Vende mais? Duvido. Os amigos de uma rede traduzem gostos de consumidores, mas não são amostra fiável. O que se diz numa rede é aceitável na realidade? Não. Mas cria notoriedade, visibilidade, projecção. Humaniza uma marca, uma empresa, confere-lhe um plano afectivo.
É como um almoço com um amigo conhecido ou com um estranho: não nos dá a conhecer mais do que aquilo que permitimos ao outro que conheça, mas confere-nos um plano humano – o tal dos arquétipos e da literatura grega. As atribuições humanas aos deuses tinham o propósito pedagógico da identificação do leitor com os modelos. O mais velho truque literário, afinal, ainda é a roda original das redes sociais.
Mas aqui fica um conselho, corajoso leitor desta croniqueta: não deixe de dizer bons dias no elevador, de sorrir abertamente a um estranho, de almoçar com os amigos ou de fazer questão de saber o nome do segurança do seu edifício. Porque, tal como nas redes, mais do que a simpatia, o que nos vende é mesmo o tal toque humano. Fundamental, acredito desde sempre.
Tema: 
Um comentário a “Almoços, opiniões e as redes sociais”
Novembro 6th, 2009 at 15:00
Porque nos livros comecei a sentir o peso, vou folheando estas páginas tão vuláteis como o sopro do vento nos meus ouvidos que não se vê mas existe.
Gosto de te lêr, este tema em especial fez-me sentir bem com quem és e como se pode ser tranparente sem o ser na realidade.
Dou-te um sorriso por dia e sempre um desejo de bom dia, mesmo que não tenhas o tal tempo, que nos é tão fácil pôr em palavras escritas mas impossível de AUMENTAR. Podemos fazer tudo; aumentar as nossas escolhas,o nosso dinheiro, o nosso trabalho,as nossas pessoas, os nossos desejos,as nossas limitações até!! mas nunca podemos aumentar o tempo.
Viver neste tempo que é nosso sem que sejamos roubados é perícia de alguns e distração de outros, mas é acima de tudo na teoria do teu avô que me centrei e reafirmei alguns valores com os quais faço questão de viver: Vive o melhor e mais feliz que poderes mas com tempo para tudo e todos só assim é Viver!!!(nunca esquecendo a técnica da agenda, virtual ou não)
Sou reprovada, críticada, apontada, julgada até por falar para todos de toda uma mesma forma, até por aqui neste mundo que já foi muito mais virtual para mim eu falo com o Sr. da portaria com o trolha com o Dr. com a Dra., etc.,com o mundo de gente que vou seleccionando para preencher os meus dias ás vezes tão preenchidos outras tão vazios…
Parabéns José Maria pelo Homem que és e por ser esta mais uma forma de poder falar contigo sem te fazer perder o tal tempo de que tanto te falou o teu Avô.
Dica:
gosto de viver com uma fórmula que é a seguinte; 8h para trabalhar, 8h para lazer,8h para dormir.
Beijo e obrigada por te poder lêr.
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