Quer editar um livro? Pergunte-me como.

Com que então também escreveu um livro e agora quer editá-lo? Parabéns! O seu livro é bom e merece ser editado, ou pelo menos é isso que você pensa, e tem todo o direito a pensar assim. Vou então explicar-lhe como fazer com que o seu livro seja editado.

Ou não. Porque a realidade é cruel!

Tem três alternativas para publicar o seu livro, qualquer que seja o conteúdo e a forma que prevê que o livro venha a ter no final.

1. Procurar uma editora

Uma editora é o que você quer.

A editora pega no seu livro e não só o publica como distribui e promove, correndo as despesas todas por conta dela.

Quanto a si, é só ajudar à promoção e esperar até se tornar uma autora rica e famosa!

Esta é a via que deve perseguir com afinco se está mesmo convencida do seu valor, e por isso deve enviar o manuscrito às editoras para que elas o possam avaliar.

(O “manuscrito” é o seu original! Ao contrário do que o termo implica, já não tem de estar escrito à mão. Certifique-se de que guarda uma cópia do seu manuscrito em local seguro e nunca envie o original para as editoras.)

Não envie o manuscrito para TODAS as editoras!

Tem de fazer o seu trabalho de casa primeiro: prepare uma lista das editoras que publicam o mesmo género de títulos. Depois, procure os métodos de avaliação de manuscritos de cada uma dessas editoras. Algumas querem apenas uma sinopse, outras querem o manuscrito completo mas num determinado formato electrónico.

Cumpra rigorosamente as regras de cada editora, se não quer que o seu manuscrito vá directo para a “cesta secção”!

Depois de enviar o manuscrito, aguarde.

E continue a aguardar.

A editora também a deve ter informado dos seus prazos habituais de avaliação e do seu procedimento de resposta. Algumas editoras respondem num mês, outras respondem em seis meses, outras só respondem se a resposta for positiva!

De igual modo, em relação a manuscritos rejeitados, algumas editoras devolvem-no sempre, outras destroem-no, outras devolvem-no com portes por conta do autor. Se a editora não lhe disser como é, pergunte, de preferência por email – costuma ter sempre resposta!

Mas não pergunte se já têm resposta para si!

Repito, porque é muito importante: não pergunte se já têm resposta para si!

Relembre-se, há tantos originais por aí que o que uma editora menos precisa é de ser pressionada para uma resposta.

Prepare-se para ser rejeitada.

E para ser rejeitada outra vez e outra vez.

O problema é que a sua probabilidade de ser publicada por uma editora é baixíssima, para aí de 1 em 1000. Ou seja, as editoras tendem a editar apenas 1 em cada 1000 títulos que lhe são apresentados.

Por isso é que é mais fácil ganhar no Euromilhões do que ver o seu livro editado.

Com tanta rejeição previsível, só você sabe qual é o seu limite de dor. J. K. Rowling foi rejeitada quase 20 vezes antes que alguém aceitasse publicar o seu Harry Potter!

Se chegar à conclusão de que não há editora que “pegue” em si ou no seu manuscrito, pode concluir à vontade que o mundo é injusto e não sabe apreciar as suas qualidades. E até pode ser verdade. Fernando Pessoa ainda conseguiu publicar um livro em vida. Mas foi só porque ganhou um prémio literário.

Faça como o Fernando Pessoa. Concorra a prémios literários e de ilustração. Quanto mais prémios ganhar, melhor. Pavoneie-os  (a não ser que tenha ganho uma menção honrosa no concurso da sua Junta de Freguesia – nesse caso esconda-o).

Mas ainda tem mais duas alternativas antes de decidir guardar o manuscrito na gaveta.

2. Edição de autor em papel

Procure alguém que a ajude a editar o seu livro, mas a expensas suas.

Repito: agora, você paga para editar o seu livro.

Na sua forma mais simples, pode dirigir-se a uma empresa gráfica que possua uma secção de pré-press, e ela encarregar-se-á de lhe paginar o livro, imprimi-lo e entregá-lo a si. O livro sairá sem editora, daí chamar-se edição de autor.

Depois, como vai encontrar leitores para o seu livro? É outro problema! As distribuidoras de livros quase nunca aceitam distribuir edições de autor, pelo que você estará sozinha a contactar directamente as livrarias, que na maior parte dos casos não quererão saber do seu livro, porque no dia em que lá for haverá outras 29 novidades a competir com o seu livro por espaço limitado nas prateleiras.

gabinetes editoriais que lhe oferecem a possibilidade de usar a chancela deles, e alguns até prometem fazer distribuição. Mas você continua a pagar para editar, apesar de parecer um livro de uma editora. Por isso é que se chama a isto “vanity publishing” - uma editora que se aproveita da “vaidade” do autor para lhe publicar o livro à sua custa. E não espere vender mais por causa da chancela ou da “distribuição”!

Se escolher a via da edição de autor, é melhor não pensar em vender os seus livros - pense antes em oferecê-los à família e aos amigos.

E às editoras. Pode pegar no seu livro já impresso e voltar à carga às editoras, mas só depois de conseguir pôr o livro a ser falado. É raro mas acontece! O livro Eragon começou por ser uma edição própria que os pais do autor (que só tinha 15 anos) promoveram activamente até conseguirem chamar a atenção de uma grande editora.

Se não quer ou não pode gastar dinheiro numa edição em papel, ainda tem uma terceira alternativa, antes da derradeira alternativa – a gaveta…

3. Edição de autor em e-book

Editar em formato electrónico poupa o custo da impressão, do papel e do armazenamento dos livros, mas ainda tem uma difusão muito limitada.

No entanto, é tão barato que você não tem nada a perder!

Prepare o seu livro em formato PDF, ou, se quiser, apenas os primeiros capítulos, já que não lhe estão a pagar para lerem tudo, e ofereça o seu livro.

Isso mesmo, ofereça, não venda.

Faça um blogue para divulgar o livro e use também o Facebook, o Twitter, o YouTube e os fóruns especializados.

Quem sabe? Pode ser que o seu livro se torne notado e alguma editora pegue nele.

Mas, entretanto, vá jogando no Euromilhões, que ainda lhe sai primeiro um prémio.

Eu avisei, a realidade é cruel…

Os procedimentos da BOOKSMILE de recepção e avaliação de originais encontram-se nesta página.

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16 Comentários a “Quer editar um livro? Pergunte-me como.”

  • osmar Firmino cardoso Filho disse:

    adorei estas explicações aos novos autores que tentam publicar seus trabalhos, são tristes de serem lidas e nada animadoras mas são a realidade. Realidade cruel que para alguns são tremendamente desestimuladoras, para outros não, serve é como um grande estimulo para se vencer o principal e mais compensador dos obstáculos que é o de ter seu trabalho reconhecido por uma editora. Acho que esse é o maior prazer de um escritor.
    E levando em conta que a estatística do comentário de que somente 01 em cada 1000 chega realmente a conseguir publicar seus trabalhos, significa que tenho uma chance em mil de publicar um dos 20 títulos infantil e infanto-juvenil que escrevi, ou quem sabe posso ajudar a mudar essa estatística, pois partilho do pensamento de que se você não consegue mudar algo, não de deixe que mude você.
    Conheci o site e o blogue da BKS e adorei conhecer esta editora e sua fotrma de trabalho.
    Osmar Cardoso, cidade de Florianópolis, (colonização açoriana) estado de Santa Catarina, Brasil.

  • Margarida disse:

    Boa tarde, ando nestas andanças há algum tempo, gostaria de colocar uma questão:
    Qual a percentagem que o autor tem sobre a venda dos seus livros? Isto em relação a editoras que nada lhe cobram por editar o seu livro. Obrigado

  • BOOKSMILE disse:

    Entre zero e 20% do preço de capa. Depende do seu poder de negociação. No meio estará a virtude.

  • Vanilza Rodrigues disse:

    Adorei suas explicações, queria saber o sequinte: se fizer todo o trabalho no meu computador inclusive a capa já que no inicio presetiaria algumasa pessoas eu preciso resistrar ou não o livro?

  • BOOKSMILE disse:

    Vanilza, você está no Brasil e fez-nos uma pergunta sobre questões de lei. Nós não conhecemos a lei brasileira, por isso não lhe podemos responder. Em Portugal, o direito de autor é automático e informal, isto é, basta ter escrito uma obra para passar a deter o direito de autor sobre ela, sem necessidade de efectuar qualquer registo da obra. Ainda em Portugal, se editar uma obra e a comercializar, é obrigatório efectuar o depósito legal.

  • Edson Malta disse:

    Sou Autor e tenho publicado em edição independente, uma obra estilo romance com tiragem de 1500 exemplares e com vendas esgotadas, gostaria muito de reedita-lo e tambem divulgá-lo em Portugal, tenho outras obras ilustrada ineditas de fabulas e historias infantis,pretendo envia-las para suas analises, se aprovads,, estas obras serão publicadas só para Brasl ou tambem para Portugal.

    Atenciosamente Edson Malta

  • Manuel de Freitas disse:

    Edson, você está no Brasil. A BOOKSMILE não está no Brasil. Não seríamos a melhor editora para si.

  • Edson Malta disse:

    OK… entrei em contato porque o sonho de todo escitor é ver sua obra divulgada também em outros paises,e em particular para mim, Portugal era uma sonho… mas tudo bem!

  • Gabriel Reis disse:

    Olá Boa tarde!

    Li atentamente as dicas sobre as dificuldades que existem e que são impostas, para quem gostaria de editar o seu primeiro livro.Realmente,o mundo para quem se dedica á escrita,parece ser muito complicado.

    Obrigado pela forma transparente como aqui ajudam a compreender o processo, assim como a sua complexidade.

    Subescrevo-me com os meus melhores cumprimentos

    Gabriel Reis

  • Eurico disse:

    Recentemente recebi a resposta de uma editora para publicar a minha obra. Mas tenho de me comprometer a adquirir 200 exemplares dos 550 que eles querem publicar. O resto é por conta deles. É esta a proposta. Gostaria de saber se isto é o normal para um autor que vai aparecer pela primeira vez. Melhores cumprimentos.

  • BOOKSMILE disse:

    Eurico, é uma proposta do tipo “vanity publishing” como é descrita no artigo. O facto de ser um autor novo e ainda não ter publicado nada não interessa. O que interessa é que alguém tem de pagar a edição e neste caso a editora propõe que seja você.

  • Jorge Antunes disse:

    Bom dia,
    Tenho em ideia publicar uma auto-biografia de um determinado atleta, convidando também para isso um jornalista.
    Gostaria de saber de que forma são distiribuidos os direitos e as margens de comercialização se for através de uma editora ou edição própia.
    Obrigado.

  • BOOKSMILE disse:

    Jorge, resposta em artigo separado.

  • Blogue BOOKSMILE, livros que saltam à vista » Blog Archive » “Quero publicar uma autobiografia de um determinado atleta” disse:

    [...] artigo mais popular do blogue da BOOKSMILE é, de longe, este, de iniciação ao mundo fantástico (onírico ou vampírico, você concluirá) da edição de [...]

  • Paulo Gomes disse:

    Boa noite,
    Precisava de uma resposta urgente a uma situação que me surgiu.
    No mês passado enviei um livro para apreciação de um concurso literário de uma editora.
    Como nunca imaginei que tivesse chance de conseguir ser um dos vencedores desse mesmo concurso, optei por editar o meu livro num site “print-on-demand”.
    Já tenho o livro à venda, numa edição de autor. Tenho depósito legal e ISBN para o poder comercializar.
    Já vendi várias cópias do livro mas…
    Hoje recebi um e-mail da editora a dizer que optaram pela publicação do meu livro e que farão a edição do meu livro em papel e em e-book.
    A editora terá a seu cargo a edição do livro (que inclui o design, a produção gráfica, o registo do ISBN, o depósito legal, a promoção e a distribuição).
    E agora? O que posso fazer se já tenho o livro à venda numa edição de autor?
    Alguém me poderá dar uma resposta?
    Precisava que me dessem uma resposta urgente, pois tenho que dar uma resposta à editora até dia 8 de julho.
    Obrigado.

  • BOOKSMILE disse:

    Paulo, apenas tem de ser franco com a editora e dizer-lhe que já tinha editado o livro em edição de autor e vendeu “várias” cópias. Em princípio isso não atrapalhará a estratégia de promoção nem a expectativa de vendas da editora, que no entanto será capaz de lhe pedir que retire do mercado a sua edição.

    Em termos legais, nada obsta a que uma obra seja editada por uma editora e depois por outra, se for esse o desejo do detentor do copyright da obra. Por isso pode ter mais do que um depósito legal, ISBN, etc. Veja, por exemplo, o caso de Tiago Rebelo, que começou agora a reeditar toda a obra na Asa.

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